Desde quando o homem aprendeu a compartilhar suas ideias na sociedade, uma bobagem ou outra é dita e publicada por aí. Mas, especialmente no que tange a esfera da tecnologia, é incrível a quantidade de ‘gente importante’ falando bobagens esses dias.
Há alguns dias, tive a infelicidade de ler uma pérola do Daniel Bailey, no site The Motley Fool, em que ele toma como base um artigo do Matthew Gertner, ex-engenheiro da Mozilla, para defender a ideia de que a Apple deveria sim, descontinuar o Safari. Sabiamente, o Motley Fool retirou o artigo do Bailey — que defendia que a presenca do Safari+Safari Mobile é ínfima e que, além de insignificante no Windows, sua performance é intragável — após pesadas críticas de acionistas e investidores.
Obviamente, uma clara armadilha para induzir investidores — público alvo do site — a pensar que os esforços da Apple — que coincidentemente promoveu no dia 19, uma conferência com seus acionistas — em manter o desenvolvimento do Safari, são um custo desnecessário.
Estaria o Bailey correto em suas suposições? Deveria a Apple descontinuar os esforços em manter um navegador próprio, e depender novamente das iniciativas de outras empresas, justamente no que tange a principal interface do usuário com a web? Antes de considerar as possibilidade, é salutar relembrar um pouco do que aconteceu com a guerra dos navegadores alguns anos atrás.
A guerra dos navegadores
Após a Microsoft varrer o Netscape da web, o que se viu por longos anos foi uma insalubre acomodação no desenvolvimento de um aplicativo que foi vital — e continua sendo — para o desenvolvimento da web em si.
O Internet Explorer se tornou uma colcha de retalhos tão problemática que, até pouco tempo, a própria Microsoft promovia uma campanha, a fim de convencer os usuários e empresas a abandonarem as versões mais antigas.
Em 1998, em um acordo de paz entre Apple e Microsoft, ficou acertado — como uma cereja extra num bolo — que o IE for Mac, que até então havia sido apresentado como beta dois anos antes, seria o navegador padrão utilizado pelo Mac OS durante os próximos cinco anos. Quem acompanhou essa época, lembra que a parceria não era lá tão perfeita e certas atualizações só eram liberadas vários meses, às vezes um ano, depois de entregues para o similar no ambiente Windows. Ao final dos cinco anos, a Microsoft já havia transferido a equipe de desenvolvimento responsável pelo IE para outros projetos e descontinuou o suporte.
Em 2004, com o lançamento do Firefox, o cenário mudava outra vez. Inicialmente criado como um projeto experimental apenas para testes internos, o aplicativo finalmente foi entregue aos usuários finais. A Mozilla Foundation, sua mantenedora, foi criada em 1998 por funcionários da Netscape, que estava sendo adquirida pela AOL, para existir independentemente e garantir, no futuro, que o desenvolvimento de propostas novas não fosse descontinuado. Acredito que o sucesso alcançado pelo Firefox, que ainda mantém hoje o segundo lugar entre os navegadores mais usados, foi além do esperado pelos seus criadores.
Porém, com o sucesso, todas estas propostas inovadoras — extensões, navegação por abas, correção ortográfica, anti-phising, recuperação de sessões, entre outras — tornaram o produto um devorador de memória, cujo ecossistema se mostrou cada vez mais difícil de manter em dia com as necessidades da Web.
Nos últimos anos, como resultado de diversas iniciativas em construir e sedimentar uma web que fosse cada vez mais livre de tecnologias proprietárias e de acordo com as orientações do World Wide Web Consortium, uma pletora de novos navegadores foram lançados no mercado utilizando o engine queridinho do momento: o Webkit.
Ah, o Webkit!
“Ei! Esse eu conheço. É o nome técnico do Chrome, não é?” — Err… quase isso. O Chrome é baseado no Webkit. Assim como todos os navegadores móveis do Android, webOS e Symbian S60, além do Flock, Rockmelt, Nintendo 3DS, Steam, Shiira, Amazon Kindle e outros poucos conhecidos do público. E o que o Safari tem a ver com o Webkit?
Precisando fugir do imbróglio que era o IE para o Mac, a Apple decidiu criar, em 2002, o próprio navegador. Como seus engenheiros já trabalhavam em uma versão interna do engine de código aberto KHTML, usado pelo KDE, a empresa notificou, em um e-mail destinado aos criadores, as suas intenções em portá-lo para o Mac OS. O código era limpo, pequeno e atendia os padrões aberto que começavam a ser estabelecidos na época.
No entanto, diante da necessidade de desenvolver duas bibliotecas adicionais — WebCore e o JavaScriptCore —, e a fim de evitar conflitos com o projeto original KHTML, ficando livre para nortear melhor o desenvolvimento do novo engine, a Apple criou o próprio repositório. Nascia, ali, o Webkit.
O Webkit e o Safari foram tão bem recebidos, que boa parte dos desenvolvedores envolvidos no KHTML voltaram seus esforços em ajudar o novo navegador. Com o crescente progresso, em junho de 2005, a Apple decidiu tornar o Webkit um projeto aberto. Inicialmente, apenas as bibliotecas necessárias na portabilidade para o Mac OS eram de código aberto.
Apesar do reconhecimento de outros fabricantes ao trabalho desenvolvido até o momento, e a adoção do engine como base para seus próprios produtos, a Apple continua como a maior contribuidora do WebKit.
O futuro do Safari e a sua importância
O Safari e o Safari Mobile, são respectivamente para o Mac OS e o iOS, a base onde a Apple pode garantir uma experiência plena, segura e integrada com o próprio ecossistema de serviços e tecnologias que desenvolve. Embora não seja atualizado com a mesma frequência que todos os usuários desejariam, as inovações estão sempre presentes a cada nova versão.
Até entendo que o Safari, na plataforma Windows, seja pouco mais que um complemento para o jukebox iTunes, e que não seja exatamente uma prioridade. Tendo em vista que cada vez mais consumidores migram para o MacOS e usam o Safari (80%) — o Safari Mobile é o líder entre os navegadores dos sistemas moveis — e que o Webkit é a base para os demais produtos que, juntos, ainda somam mais que 20% de participação na plataforma Windows, nem deveria.
Porém, ignorar a presença e a importância das intenções da Apple no futuro dos navegadores, é o claro sinal de uma visão miópica. Dar de mão beijada uma hegemonia conquistada bit a bit ao longo dos anos e voltar a depender de rivais como a Microsoft — que nunca deu prioridade em seus produtos a Apple, como a história nos é testemunha — ou até o Google — que prefere suportar tecnologias como o Flash e o WebM em detrimento ao que é melhor para o internauta — é jogar no lixo o trabalho árduo de anos, um belo montante de dinheiro e entregar o futuro aos concorrentes.
No final das contas, a Apple hoje, indiretamente, é quem norteia, através do suporte ao Webkit e a promoção de soluções orientadas ao HTML5, a garantia de uma web saudável e segura para o usuário final. Ignorar essa realidade poderá ainda ser fatal para o sucesso do iOS e todas as novas soluções construídas em torno do iCloud.


